quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Festa

O dia nasceu
o sorriso brotou
a ruga saiu
a passista ensaiou
o morro tremeu
e ela sambou, sambou, sambou...

O elo quebrou
a nuvem choveu
o sol retornou
e ela viveu
o CD tocou
e ela dançou, dançou, dançou...

E o céu explodiu
a avenida se encheu
o fogo zuniu
no azul espocou
'o samba não morreu'
- e o dia ainda não terminou.

In a view

"To him who, in the love of Nature, holds
communion with her visible forms, she speaks
a various language (...)
She has a voice of gladness, and a smile
And eloquence of beauty; and she glides,
Into his darker musings, with a mild
And healing sympathy..."
(William Cullen Bryant - Thanatopsis)

A familiar scene
sitting on the rock over the ocean
under the warm sun
I sway with the waves
no binds here

Then the wind gently flies
over my untied hair
the warm sun subtly
glides over my skin
and the waves whisper quietly
to fill the sounds of silence
with grace

it doesn't matter if it makes
no sense at all
just look up at the sky
and admire the greens of the ocean.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Na verdade

Na verdade, ainda estou daltônica
ainda tenho dificuldade de
enxergar além do óbvio
ando um pouco surda, também
de me imergir em silêncios
- mas ainda sei dançar.

Ainda sinto o calor da dança
ainda intuo o chegar-se dos corpos
e a atração irresistível dos olhares;
essa faz parte de mim
é meu repertório

Da mesma forma, sou afeita às
as línguas, melodias perfeitas
pra cantar sentimentos que me
são tão comuns
- tudo começou assim
afinal

quantas línguas ainda vou precisar
aprender um dia,
quantas danças e quantos salões
quantos pares de óculos para enxergar,
quantas tentativas e erros,
quantos poemas tortos,
quantos mis-feitos, desfeitos
e refeitos,
pra dizer um 'na verdade' -
que não chega nem a
ser 'no fundo',
de tão evidente;

como as vagas e as brumas,
que oscilam com as marés,
porém mais certas e firmes,
pois estão sempre lá,
enquanto eu apenas insinuo;

apenas uma simples verdade,
de tão eu que sou,
de tão você que é.

De noite, no Oráculo de Delfos

nada, mas absolutamente nada
supera a alma humana

sempre tentam se entender
nem sempre conseguem

se amam e se odeiam
mas se toleram

se procuram e se perdem
mas por fim se acham

gritam e esperneiam
e depois sussurram

se somam e se dividem
e então se deduzem

- que os deuses tenham paciência!

- e que os deuses participem da festa!

Caminhos

como prosseguir
se meu caminho se mescla ao seu
e o meu seguir
esbarra no seu estar?
como parar
se não quero me perder?
como perder
se não quero mais parar?
sigo em silêncio
pra você se percorrer -
sigo cantando
até me encontrar.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Adios Nonino - cenas de um tango portenho

cena 1

chegas, hermosa, no salão;
em desafio, carmim, pérola
e aroma francês;
olhar alto e altivo,
braços que querem,
pernas que sabem
e te insinuas

cena 2

derretes em teu sorriso
e o seduz
então, tomando-te em seus braços,
deslizam pelo salão
os círculos gentis das tuas pernas
nas dele
já o tens

cena 3

ele te segura, firme em toque
viril e te rodopias,
incessante, célere,
e a ti se impõe;
corpos leves e arfantes
ele a queda
e páram
e se olham
um instante de eternidade

cena 4

terno, quieto e suave
segue a dança, o movimento,
cada vez mais intenso,
te entregas uma última vez,
como se fosse de fato a última
mais um instante de insana
vertigem

cena 5

e páras, então -
sorrindo,
vibrando,
amando,
sozinha,
no meio do salão.

Então

não me culpe
o meu vazio não é o seu

não te culpo
se você nem vazio tem

só não desculpo
se você me culpar

o esforço é meu
e o vazio também.